sexta-feira, 18 de junho de 2010

Capítulo 1 - Parte 3

O Exorcismo


Estava realmente determinado. A ponto de descer ao inferno e decepar esse tal demônio. Ele não podia ser tão pior que a minha mãe. Quanto mais eu procurava, mais eu me afastava do meu objetivo real, e sem perceber, estava rodando em círculos. Comecei a me aprofundar na busca, procurar respostas. Comecei a estudar ocultismo e buscar soluções para minha jornada. Dei-me conta então, que quanto mais eu estudava e aprendia, mais ignorante eu me sentia. O ‘saber’ é um poço sem fundo. Decidi então fazer o que ninguém mais teria coragem. Fui realmente atrás do demônio.
Diferente do que pensei, ele me acolheu de braços abertos e me convidou para um drinque. Surpreendi-me. Esperava um trevoso em chamas com cheiro de enxofre e olhar macabro em um abismo de lava, e me deparei com um homem bem vestido, de gosto refinado e extrema elegância no porte e linguajar. Trajava um terno preto de muita classe, uma camisa vermelho-sangue e sapatos pretos. Surpresa maior foi quando reparei: ele tinha os meus traços. Não sei se por deboche ou lição, mas ele era eu. Uns quinze anos mais velho, porém bem conservado, com um ar maduro e  imponente. Conhecia-me bem, me cumprimentou com um firme aperto de mãos, sorrindo e olhando nos olhos. Convidou-me a sentar-me em sua mesa num belo saguão, ao melhor do jazz, interpretado por um piano, um rabeco e uma bateria. Me ofereceu um whisky 21 anos e um charuto cubano da melhor qualidade. Por educação, aceitei.

-Em que posso ser-lhe útil? – Indagou com um tom de voz calmo e aveludado.

-Não é em que, e sim, como pode ser-me útil. – Retruquei – Vim apresentar-lhe uma proposta.

-E que proposta seria essa?

-Ou o senhor sai da minha vida por completo ou exorcizá-lo-ei. – Hostilizei.

-Parece-me mais uma ameaça a uma proposta. – respondeu em tom sereno.

-Entenda como... – e fui interrompido de súbito por uma mulher, a mais linda que já vi, que trazia nossas bebidas e charutos. Encantei-me por um instante, mas fui rapidamente trazido de volta ao foco.

-O senhor dizia..?

-Eu dizia que o senhor interprete como melhor entender! Estou decidido a livrar-me do mal.

Brindamos, e ele educadamente acendeu meu charuto. Então após um gole, ele olhou nos meus olhos e disse calmamente:

-Compreendo sua busca, porém, sinto informar-lhe que não será possível. Eu não me faço presente na sua vida para deixá-la e nem é possível exorcizar-me, já que, como pôde perceber, eu sou você.

-Isso é uma ilusão! Usas minha feição para ludibriar-me! Não sou tolo! Conheço tuas artimanhas, demônio! Posso não ser um fiel participante dos cultos, mas ainda assim meu Senhor me amparará e não cairei diante de vós!

-Não seja ingênuo, tua alma já me pertence. Teu Senhor nada fará por ti.

-Ousa desafiar meu Senhor?

-Seria desnecessário, para que desafiá-Lo se o inimigo em questão é o senhor mesmo?

-Sei o que quer e não vai confundir-me! Trouxeste a desgraça a minha vida uma vez e nunca mais!

-Faz-me rir! Hahaha! Tão ingênuo, criança! Dizes que eu trouxe a desgraça para tua vida, assim como tua mãe faz, culpa-me pelos teus erros! São teus erros e não meus, eu não levei o inferno à sua vida, não senhor, eu aceitei a sua vida no meu inferno. Culpa os demônios pelas tuas falhas. Levanta e enfrente a ti mesmo! Pare de se esconder na pele do cordeiro, eu não sou o seu lobo, o senhor o é! Humanidade sofrida, que se arrasta em seu próprio lixo, não percebe que vós sois os culpados por toda a maldade e tristeza do mundo? Por que culpam os demônios, se em vós eles se encontram?
Por que escondem-se de si mesmos e não enfrentam esse "lobo", que vive travestido com o hábito sagrado?


Dizem que eu sou uma entidade perversa, uma entidade que deve ser temida. Ora, eu já assumi o meu "lobo" há muito tempo, se não sou santo, também não sou mais um hipócrita que se auto-engana, fechando os próprios olhos e virando as costas para as Trevas, que também fazem parte de mim. Abra os olhos e enfrenta hoje as Trevas que vivem em vós, para amanha não perder-se nelas. Um verdadeiro guerreiro da luz e amor do Criador pode "entrar e sair" do mais profundo inferno, pois nele, as trevas já foram combatidas e vencidas.

Não sabia o que dizer. De repente tornou-se tão óbvio, o demônio trazia a minha cara para mostrar-me, o culpado era eu. Se eu não conseguia caminhar pelas trevas, é porque eu ainda as vivia. Eu alimentava as trevas com tanta intensidade dentro de mim, que nem com a morte eu estava curado.

Ele ainda completou:

-Tua determinação te traiu. A mesma força que te trouxe até aqui, te cegou de tão intensa. E cada passo que dava em direção ao seu objetivo final, foi um passo em direção a mim. Tornou-te intolerante, sentiu-se apto a julgar e executar, de tão cego, sufocou o que te torna humano, seu coração.

Respirei fundo, cabisbaixo. ainda em silencio, contendo ao máximo as lágrimas que teimavam em escorrer pelo meu rosto. Raiva? Frustração? Medo? Não. Fui de encontro certo ao demônio numa louca tentativa de exorcizá-lo e acabei encontrando Deus.

-Como fui tolo! – eu disse em meio às lágrimas que rolavam compulsivamente – Fui tão cego atrás de um culpado para o meu sofrimento que acabei caindo sem ver que eu sempre fui o culpado. Desci ao inferno procurando uma Besta, um demônio de mil cabeças, pronto para acabar com ele em nome de Deus e encontro um emissário Dele, travestido no meu reflexo. Mas não entendo, por que o senhor é sempre descrito como um monstro? Por que o senhor é tão temido e desrespeitado?

Deu mais um gole e me respondeu sorrindo:

-Cada um constrói sua própria ponte para o Inferno. Eu sou reflexo do interior de cada um. Eu sou seu coração, tão vital quanto traidor. Aquele que me vê como uma Besta de mil cabeças sofrerá a fúria do Inferno da Besta de mil cabeças, aquele que me vê como um carrasco de chifres e tridente, será punido conforme seu merecimento, e assim por diante.

-Não entendo senhor, porque eu o vi como eu? E porque o senhor não me puniu? Disse que minha alma já pertencia ao senhor e depois me mostrou a verdade, por quê?

-Primeiro, o senhor não está desencarnado, veio até mim por opção, ainda não chegou sua hora. Segundo, eu já lhe disse, eu sou o seu coração, eu sou reflexo do que o senhor vibra, o senhor achava estar vibrando força, determinação, clareza, mas na verdade, o senhor não estava vibrando nada.

-Como assim? O que o senhor quer dizer com isso?

-O senhor vibrava o vazio absoluto, um dos mistérios mais incompreendidos da Criação.

-Ainda não entendo. Por favor, me explique senhor!

Ofereceu-me mais uma dose para continuar a conversa e prosseguiu:

-Não posso explicar-lhe tudo, muito o senhor aprenderá em sua missão, mas posso adiantar-lhe: o senhor compreendeu um aspecto da morte que poucos compreendem enquanto ainda vivem. A morte não é necessariamente o desencarne. A morte pode trazer muitas benesses quando bem trabalhada e aproveitada. O senhor sem saber conseguiu a morte da negatividade, a morte de seus tantos vícios, a morte do seu antigo eu para a chegada do novo ser que está por vir. Um ser consciente e capaz de compreender a importância da sua missão, mais importante ainda, capaz de cumprir essa missão com louvor. Somente encontrando o vazio absoluto é possível regenerar-se. Agora, já está tarde, é hora de voltar para o seu corpo! Encontrar-nos-emos algum dia cavalheiro!

-Não sei como agradecer-lhe senhor! Perdoa minha hostilidade! Não sabia que o próprio demônio era um emissário do meu Senhor!

-Tudo na sua vida é obra ou intervenção Dele! Basta o senhor saber olhar com fé e amor.

Voltei para o meu corpo ainda muito emocionado. Ainda era jovem e havia encontrado muito mais do que procurava. Fui até o Inferno buscando o fim e encontrei o início. Essa foi a maior prova de que Deus se faz presente em todos os lugares. Ele é o Tudo e o Todo! Sem dúvida Ele está em tudo!


Conto de Felipe Portaro

*Um trecho dessa conversa foi inspirada e por admirição acrescida de algumas frases de um texto de Fernando Sepe (Blog Orun Ananda)

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