"Capítulo 1" é um pequeno conto de minha autoria. Dividirei suas 3 partes em 3 posts.
Parte 1 - Sobrevivendo a mim mesmo
Muitos procuram o caminho mais fácil, procurar alguém mais insuportável que si próprio para atribuir todas as ‘desgraças’ que lhe cerquem. De fato é um caminho ‘tranquilo’ por assim dizer, afinal, para que assumir o quanto é difícil sobreviver a si mesmo? Obviamente, nunca sonhei em admitir para mim e para o mundo o quando eu, e apenas eu, era responsável pelas minhas derrotas e frustrações, porém, entretanto, eu optei por dormir sozinho, o que eu não sabia, é que isso implicava em acordar comigo.
E as longas conversas antes de dormir com minhas companheiras, que outrora tanto me incomodaram, gritaram alto a sua falta diante do silêncio que dava voz aos meus pensamentos. Alguns tão doentes, que creio eu, seriam dignos de passar para trás os piores relatos que a humanidade já conheceu. Afinal, que espécie de demônio sonharia em abrir o peito da própria mãe com os punhos e se deliciar apertando seu coração até explodi-lo entre seus dedos encharcados com o sangue quente, enquanto seus olhos se apagam lentamente imprimindo a dor eterna que aquele corpo jamais esqueceria mesmo depois de decomposto. Fui criado para ser um monstro. Mas neguei minhas origens e criação, contrariando tudo e todos. Provavelmente lendo isso, hão de pensar “Animal! Sádico! Débil!”. Vocês não conhecem minha amada mãe! Pela criação dela, e do meu amado, porém extremamente ausente pai, eu poderia ser qualquer coisa, menos um ser humano comum. Admito comum não sou, mas não estou tão fora dos padrões aceitáveis, e como a maioria, eu disfarço bem!
Vou começar pelo meu amado pai, por que não tenho muito que falar dele, já que de fato, convivo com ele há pouco tempo. O máximo que fiquei sem vê-lo foram míseros seis meses (aproximadamente). Porém, quando presente, ele nunca fez muito além de gritar comigo, me ofender, me humilhar de diversas maneiras, provando o quanto ele era superior a uma criança de oito anos. Pelo menos ele se manteve fiel as ameaças e agressões verbais, diferente da minha amada mãe que sempre inovou com suas diversas maneiras de agressão psicológica, moral, física e qualquer outra que ela encontrasse. Com sete anos, minha amada mão me ensinou carinhosamente o que eram um ‘cavalo’ e um ‘veado’ enquanto cuspia na minha cara, isso mesmo, cuspia na minha cara, literalmente, a saliva quente dela queimava meus olhos e me fazia querer vomitar, mas eu não podia, já que estava preocupado demais esperando a próxima agressão entre seus gritos “SEU VEADO! CAVALO! SEU MONSTRO!”. ‘Monstro’ eu já sabia o que era, ‘monstro’ era o ser que dormia no quarto dos meus pais travestido de mãe. Também aprendi os males da mentira desde muito cedo! Mamãe é uma atriz nata! Ela é capaz de roubar o seu dinheiro na sua frente e gritar ‘SOCORRO ESTOU SENDO ROUBADA SOCORRO!’ ou um exemplo mais clássico, como as inúmeras vezes que ela ofendia as pessoas com suas mentiras e depois saia pedindo socorro chorando desesperada ‘SOCORRO ESSE MONSTRO ESTÁ ME ATACANDO!’. Infelizmente mamãe nunca entendeu que, se ela chega para uma pessoa que está quieta em seu canto e a chama de nomes como ‘corno’, ‘veado’, ‘brocha’, ‘colhão’, ‘vadia’, ‘sapatona’, entre outros que ela tanto adora, ela não vai despertar o amor do próximo e sim o ódio! Mas não tem problema, é tudo culpa dos outros, sempre, e pode acreditar, é sempre culpa dos outros mesmo! Afinal, qual a responsabilidade dela sobre as próprias atitudes não é mesmo?
O mais interessante até hoje, é ver o quanto eu me sentia culpado por tudo isso. Na minha cabeça, a imaturidade, covardia e falta de interesse do meu pai, e, as atrocidades e covardias cometidas pela minha mãe, tinham que ser culpa minha. Meus realmente amados avos (pais da minha mãe) sempre me diziam que iam me ajudar e se esforçavam para isso como ninguém, mas sempre me lembrando que eu não podia falar para ninguém o que acontecia, senão levariam a minha mãe. Que criança de oito anos quer isso? Eu não! Ninguém levaria minha mãe de mim! Mesmo que ela distribuísse mordidas pelo meu corpo todo outra vez, como já havia feito antes - incrível, até hoje se alguém ameaça me morder, minha reação é a pior possível. Eu me considerava culpado pelo comportamento doentio dos meus amados progenitores. Isso me tornou durante alguns anos uma criança extremamente carente de qualquer tipo positivo de atenção. Na escola, essa carência me afetou brutalmente, já que eu não media esforços para ganhar aprovação dos colegas, sempre me rebaixando e fazendo o mesmo que aprendi em casa: obedecer e calar a boca.
Como eu disse no começo, eu lutei contra a minha criação. Como? Não sei dizer exatamente. Por quê? Também não sei dizer. O fato é que em algum momento da minha infância eu comecei a reagir instintivamente para minha sobrevivência, afinal, já não era apenas o inferno que eu conhecia em casa, agora também existia aquele inferno chamado escola. Obviamente, como a maioria esmagadora dos adolescentes, com quatorze anos, procurei uma fuga, algo que me libertasse, e encontrei. Drogas! Porém prefiro pular essa parte da minha vida que se resume em sete anos de loucura, sexo e tentativas constantes de consumir tudo o que eu conseguisse até apagar – diferente dos meus amigos da época, meu objetivo não era ficar louco e curtir a ‘trip’, era apagar - e pular direto para os vinte e poucos, onde começou o que eu vou chamar de ‘meu despertar’.
Até então eu não pensava em nada alem de destruir minha cabeça, apenas o suficiente para não sentir mais nada, ficar completamente anestesiado.
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